Motivar o voo de outras mulheres é dar asas a si mesma

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Cresci no meio dos meninos. Brinquei de bolita, jogava muito futebol e marcava cada golaço de canhota que até a diretora da escola torcia por mim pela janela da sala dela. Sério. Podem perguntar. Brinquei tanto que quase era um deles. Tinha um melhor amigo. Meu namorado, segundo os colegas da escola. Houve um tempo em que ficamos sem nos falar e não brincávamos como queríamos porque sentíamos vergonha do que iriam dizer. Vivíamos juntos. Nossa família sempre foi muito unida e ainda é. Nós entendíamos, mas, algumas pessoas não.

A maioria de nós tinha oito anos ou mais. Aprendi muita coisa com o grupo de meninos que se reunia depois da aula num lugar para brincar. Uma delas foi não escolher nenhum deles para dar meu primeiro beijo. Eles falavam muito das meninas, algo como que querendo encontrar um defeito. Ouvi uma vez que uma tinha a bunda grande demais, mas, não sabia caminhar direito. Outra era gostosa, mas, era muito chata. Tinha uma que sempre vinha de saia pra aula, ela dançava no recreio até o chão e eles ficavam loucos pra ver a calcinha dela. Tinha também as intocáveis que segundo eles, só estudavam e não pensavam em namoro. Mais tarde fiquei sabendo que para eles, eu era uma dessas últimas.

Durante as conversas bem debochadas havia um e outro que dizia “mais respeito, tem uma menina aqui.”. E em alguns casos, eu me manifestava fazendo a famosa pergunta “Você não se enxerga?”. Sempre fui respeitada no meio deles, mas, nunca quis saber o que eles falavam na minha ausência. Durante muito tempo observei e convivi com um grupo de meninos que na verdade não estava falando sobre as meninas. Eles estavam falando contra elas. Nunca entendi porque meus amigos queriam corrigir as meninas. Parecia que existia um padrão e se a menina não se encaixava, era imperfeita, errada ou imprópria para eles.

Tanto os homens, quanto as mulheres, todos fomos ensinados desde pequenos a agir como se fossemos corretos e perfeitos. Se a pessoa que estivesse em nossa frente tivesse um comportamento que poderíamos considerar negativo ou fora do nosso padrão conhecido, ela não era diferente. Era errada. E então, isso alimentava a ilusão de crescer tentando ser o que não éramos e ainda tentávamos mudar os outros.

Já fui chamada de gurizinho moderno. Quando lembro disso caio na risada, mas, na época eu queria era atirar uma pedra na pessoa que me dizia isso. Meu irmão me influenciou muito também. Aprendi a andar de bicicleta com ele. Fazíamos um grupo de cinco e íamos correr pelas estradas. Obviamente, eu era a única menina.

Conhecendo o comportamento masculino que havia ao meu redor, aprendi o que os meninos gostavam ou não, nas meninas. Sendo um gurizinho moderno, não me encaixei em nenhum dos lados e cresci vendo também a competição que havia entre as meninas. Nunca me interessei, pois, aquilo sempre foi ridículo. Uma querendo ser mais bonita que a outra. Uma querendo humilhar a outra. Mal sabiam elas que os ataques e todos os julgamentos faziam parte de uma máscara que usavam para encobrir tudo o que não aceitavam nelas mesmas. Uma máscara sutil que continha o desejo de ser amada, acolhida e principalmente, aceita. Elas não entendiam que eram únicas do jeito que nasceram. Então, aos poucos foi se levantando uma geração de meninas frágeis e domesticadas. Umas bonecas. Máquinas de agradar os outros sofrendo a pressão de ser tudo para todos e vazias para si.

Não há tristeza maior do que não conseguir reconhecer o próprio valor. Elas não são culpadas, embora, muitas se sintam assim. Todas foram ensinadas a obedecer. E por que eu sempre fui consciente disso? Porque tudo o que aprendi a ser sempre foi criação de um grupo patriarcal maior que ditava as regras e comportamentos e para meu espanto eu convivia dentro de um deles.

Cresci na natureza e ela me ensinou a ouvir minha intuição e não o que me diziam ser correto. Enquanto eu crescia subindo em árvore, havia meninas que só conseguiam crescer passando por cima uma das outras. Enquanto a natureza me ensinava a observar e a ser criativa, havia meninas podando seus potenciais para serem as melhores. Enquanto eu crescia num grupo de meninos aprendizes do machismo ao mesmo tempo ouvia minha própria natureza e a voz dela sempre prevaleceu.

Ainda vejo muitas mulheres dentro de relacionamentos abusivos e não sabem. Acham totalmente normal e certo viver para servir um homem. Quando uma descobre-se insatisfeita e resolve tomar as rédeas da própria vida é chamada de errada. Perigosa. Ousada. Com quem será que aprendeu a ser assim? Quando uma mulher realmente desperta, pode acreditar que não há quem possa segurá-la. Ela cria, planeja e desenvolve planos para recuperar o tempo perdido em que estava adormecida e aconselha outras mulheres a fazerem o mesmo. Assim, quando elas se juntam há um voo mais longínquo. Ajudar, acolher, motivar e fortalecer outras mulheres é dar asas a si mesma. Quando uma mulher se une a outra para derrubar os muros da consciência que limitam a sua liberdade, a Terra as ouve com uma Mãe e dá o que cada uma precisa. O Sol as fortalece e ilumina seus caminhos. O ar desintoxica seus corpos e as torna leves. A água cristalina purifica até seus Espíritos. Enfim, quando mulheres se unem para ajudar várias outras mulheres, todo o universo está ao lado delas.

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Daniela Machado da Luz
Me chamo Daniela Machado da Luz e é com muita alegria que faço essa parceria com o Portal Plural. Vos digo, que aos 15 anos de idade, eu achava ser alguém que sabia algo. Aos 18, vi que não sabia muito, só conseguia ver que minha existência se igualava ao tamanho de uma pequena pedra no meio da poeira. Aos 19, morei perto da praia e acreditem, transformei-me em grão de areia. Então, agora com 21, há quem me pergunte “Você realmente existe?”. Não estou me tornando em nada porque do nada não vim. O nada não existe. Apenas tento viver consciente de que eu e o Universo inteiro somos Um. Desde cedo fui uma leitora voraz e logo fui atraída pelo estudo da ciência e espiritualidade. Lia absolutamente de tudo e foi aí que notei que estava adquirindo uma bagagem intelectual muito grande. Então tomei a decisão de compartilhar (este pouco que sei) com as demais pessoas porque se hoje eu sei algo foi porque alguém compartilhou comigo. No entanto, compartilhar conteúdos e momentos despertaram em mim influenciada por Sócrates, a ideia de que quanto mais eu estudo menos eu sei. Ao longo de alguns anos estudei Administração de empresas, desenvolvi meu talento com a fotografia, me tornei vegetariana pelos animais e hoje curso Psicologia. Meu objetivo através dos textos é promover uma revolução e pasmem, ela já está acontecendo! Há uma revolução silenciosa aparentemente, mas, é porque ela é interior e quero que através de meus textos você procure concentrar sua atenção não para a autora, mas, sim, para si mesmo. Eu sou um ser humano como todos os outros. E você é a pessoa mais importante para você mesmo, por isso, invista em sua saúde mental e espiritual. Valorize a vida que possui olhando através dos olhos da alma e ame! O amor quando é verdadeiro não possui identidade. Ele age onde não há bloqueio. Que entre mim e você, não haja identidade. Apenas Amor.

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