REFUGIADOS NO BRASIL

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A polêmica dos refugiados tem levantado discussões significativas em torno de valores básicos da nossa sociedade. Como colocar numa balança, em lados opostos, de um lado, a conservação do patrimônio próprio, do espaço, das riquezas naturais e culturais, vagas de emprego etc., e de outro, o acolhimento de seres humanos que deixaram suas terras em busca da sobrevivência?

É bastante fácil se posicionar pelo acolhimento irrestrito dessas pessoas, que a princípio não pedem muita coisa, como também é fácil imaginarmos uma transformação imprevisível no panorama social atual, a ponto de perdermos o controle, e até mesmo as condições das quais desfrutamos, situação que nos faz temer a “abertura das fronteiras”. É, realmente, um tema bastante delicado.

Há um tempo atrás, ouvimos o discurso de um professor americano que demonstrava, numa dinâmica com bolas de ping-pong em recipientes de vidro, a impossibilidade de nações prósperas acolherem a progressão de refugiados no mundo, argumentando ser mais correto que essas nações auxiliem as pessoas nos seus países, melhorando os locais onde se encontram. A ideia é muito boa, mas quase uma utopia, se trazida à prática. Como seria essa interferência política entre nações soberanas? Sabemos de quantas guerras foram provocadas por isso. A transferência de recursos também não resolve problemas sociais, e isso não só é lógico – pois um país que falhou em gerenciar seus recursos não administrará diferente o que receber a mais, como temos visto exemplos de países que o Brasil auxiliou financeiramente não conseguirem evitar a chegada do caos, levando milhares de pessoas a abandonarem seus lares, buscando refúgio e recursos no nosso país, que pode não ser o melhor, mas está longe de ser o pior.

Partindo de princípios morais, e temos o melhor dos exemplos morais em Cristo, a fraternidade que nos une sob a condução de um Deus soberano, justo e bondoso, não admite que coloquemos quaisquer valores acima das pessoas. É justo que trabalhemos pela disciplina, pela ordem, pela conservação do que é bom. Mas a disciplina, a ordem e a preservação são valores que não conflitam com o bem coletivo. Afinal, somos, acima de tudo, uma organização mundial, universal, em que o que beneficia o indivíduo não pode prejudicar o país, o que beneficia o país não pode prejudicar o continente a que pertence, o que beneficia o continente não pode prejudicar o mundo… pois, em última análise, aquele primeiro indivíduo pertence ao país, mas também ao continente, ao mundo… a poluição praticada em uma mineradora desequilibra o clima, afetando não só a cidade onde está localizada; da mesma forma, a dor de um japonês que chora a perda de um filho necessariamente afeta a minha vida, se não pelas vias do abalo emocional manifesto, pelas vias das vibrações espirituais, mais sutis que o ar. Analisando assim, aqueles valores, disciplina, ordem, conservação e tantos outros, para serem praticados verdadeiramente, devem ser complementares, um fortalecer ao outro, mas também deve atender à universalidade, considerando a todos os indivíduos. Assim como não sou disciplinado se cumpro ordens no trabalho e não em casa, nem zeloso se conservo meus pertences e sou negligente com os dos outros, não posso ser pacífico nem caridoso se me esforço pela paz e pela atenção aos meus compatriotas, agindo de forma contrária com que não nasceu nas mesmas linhas (imaginárias) demarcatórias do território do meu país. Para os Espíritos, para Cristo, para Deus, a nacionalidade, as classes sociais, a personalidade mesmo, são apenas diferentes “ambientes de trabalho”, adaptados a variadas formas de colaboração e progresso, todos com o mesmo fim: aperfeiçoar os filhos de Deus, que somos todos nós, sem exceção.

Nesse sentido, o que pensar da nossa responsabilidade diante de um irmão que pede abrigo, trabalho e dignidade em nosso país? O que poderemos perder com isso, se pensarmos no que levaremos dessa vida após a morte? O que ocorreu com as poderosas civilizações da Antiguidade, que dizimaram outros povos pela preservação das suas riquezas e sua identidade cultural? Qual o papel espiritual do Brasil, esse país imenso em área, em recursos naturais, e que tem na sua formação povos tão diferentes, mas que tiveram suas qualidades somadas pela direção espiritual do país?

Esse papel, a responsabilidade do Brasil no curso do nosso planeta, é o que trata o livro “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho”, da autoria espiritual de Humberto de Campos, psicografia de Chico Xavier. Segundo o autor, “se outros povos atestaram o progresso, pelas expressões materializadas e transitórias, o Brasil terá a sua expressão imortal na vida do espírito, representando a fonte de um pensamento novo, sem as ideologias da separatividade, e inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz.” Essa nova luz, a vemos na mentalidade brasileira, que exalta a superação das dificuldades individuais, e a superação das diferenças interpessoais, resistindo aos inúmeros movimentos preconceituosos e exclusivistas que tentam limitar as vantagens a pequenos grupos. Escreveu Humberto de Campos: “Primeiramente, surgiram os índios, que eram os simples de coração; em segundo lugar, chegavam os sedentos da Justiça Divina e, mais tarde, viriam os escravos, como a expressão dos humildes e aflitos,
para a formação da alma coletiva de um povo bem-aventurado por sua mansidão e fraternidade.”

Como um maestro, Jesus compôs a “alma coletiva” do Brasil, para se condicionar à missão futura. Além disso, revela o autor: “Só o Brasil conseguiu manter-se uno e indivisível na América, entre embates políticos de todos os tempos”. Qual seria o propósito do Mestre, se não o atendimento material e espiritual do mundo? Dissemos material, porque hoje mesmo ouvimos no jornal uma análise econômica sobre a tendência de o Brasil “alimentar o mundo”, falando sobre a capacidade de produção brasileira.

Essa obra realmente traz preciosas lições com as quais encerramos o texto chamando a atenção para a necessidade de meditarmos com cabeça e coração sobre as movimentações sociais que afetam o conforto e a estabilidade que valorizamos, pois “as forças das sombras alimentam, muitas vezes, o personalismo e a vaidade dos homens, mesmo daqueles que se encontram reunidos nas tarefas mais sagradas.” A pretexto de nos resguardar materialmente, não podemos ferir em nossa alma os sentimentos de fraternidade e caridade que estão apenas germinando, e que precisamos cuidar como nossa verdadeira riqueza.

“Jesus transplantou da Palestina para a região do Cruzeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim de que os seus rebentos delicados florescessem de novo, frutificando em obras de amor para todas as criaturas.” A “árvore do Evangelho” está plantada no Brasil. Sejamos nós o solo fértil para que surjam as florescências do amor verdadeiro que ordena, e do progresso que nos realiza, superando as querelas materiais, para que os propósitos espirituais se cumpram.

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Horas de Luz
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